
Origens do Rito Adonhiramita
O contexto histórico: A França Maçônica
do século XVIII
O Rito
Adonhiramita é filho da
Maçonaria francesa. Para compreender suas origens é necessário
compreender como se desenvolve a Maçonaria Francesa no século
XVIII.
Na França a Franco-Maçonaria obediencial, ou
seja, regulamentada por um sistema institucionalizado, foi
implantada por volta de 1725, através de imigrantes ingleses
exilados por razões políticas ou religiosas. Em Paris é notável
o número deles e sua origem, em geral, é Londres. Junto com suas
bagagens trazem os costumes e procedimentos maçônicos utilizados
na capital inglesa daquela época, da primeira Grande Loja de
1717. Esses primeiros costumes sofrerão significativas mudanças
em pouco tempo.
Na Inglaterra, a partir de 1725, com o desenvolvimento do Grau
de Mestre, começam a se desenvolver os Graus de Aperfeiçoamento.
Muitas Lojas os praticam e não havia nenhum regulamento em
relação a eles. Os mais antigos fazem referência à lenda do
terceiro grau e ao espírito cavalheiresco.
Obviamente que, com o trânsito de maçons entre Londres e Paris,
esses desenvolvimentos, em pouco tempo, estarão em uso no
território francês.
Em 1730, a Grande Loja de Londres introduz inovações em seus
procedimentos litúrgicos como reação ao tristemente célebre
“Masonry Dissected”
de Samuel Pritchard,
que seria traduzido e reeditado na França em 1745 como “L’Ordre
des Francs-Maçons trahi”.
Com o sucesso de vendas da obra de
Pritchard, e com a lenda de que os franco-maçons se ajudam
financeiramente, de que nenhum maçom é deixado na penúria, de
que sendo maçom a vida se torna mais fácil, há verdadeira
corrida de uma horda de profanos que, tendo se apoderado dos
segredos ritualísticos das Lojas através da citada obra,
apresentam-se às Lojas como maçons...
As modificações introduzidas pela Grande Loja de Londres,
visando identificar os falsos maçons produzidos pela obra de
Pritchard são,
basicamente, a inversão do pé da marcha, a inversão das Colunas
dos Aprendizes e Companheiros, a mudança das palavras e a
introdução de uma palavra de passe no Grau de Aprendiz.
Em 1728 estava organizada a primeira instituição maçônica na
França, a “Grande Loja da França”. Em 1735, a Grande Loja da
França solicita da Grande Loja de Londres a autorização
necessária para tornar-se uma Grande Loja provincial, o que foi
negado. Em 1743, a autorização foi dada e uma instituição foi
constituída com o nome de “Grande Loja Inglesa da França”. Essa
mesma instituição, em 1773, mudaria seu nome para “Grande
Oriente da França”.
Os rituais transplantados de Londres a Paris são, obviamente, os
já modificados 13 anos antes, ou seja, com as Colunas
invertidas, a mudança das palavras, o pé direito iniciando a
marcha e a Palavra de Passe no Grau de Aprendiz.
As Lojas francesas praticavam tanto os 3 Graus Fundamentais
(Aprendiz, Companheiro e Mestre), quanto os Graus de
Aperfeiçoamento. Com o passar do tempo, quase em cada província
francesa haverá um sistema diferente. A criação de sistemas
ritualísticos como a “Reau-Croix”,
conhecida como “Ordem dos Sacerdotes Eleitos do Universo” (Elus
Cohen) na década de 1740, a Estrita Observância Templária (de origem alemã)
e o sistema conhecido como “Rito de Perfeição de Heredom” (1758), originado
com o discurso de Ramsay
em 1738, que misturavam pretensões políticas, valores
cavalheirescos e temas alquímicos, herméticos e esotéricos,
produziram o caldo cultural necessário para uma verdadeira
explosão de Graus Maçônicos.Em 1773, devido ao caos instalado pela enormidade de graus
praticados sem qualquer regulação, o Grande Oriente da França,
tentando introduzir alguma uniformidade nesse emaranhado, cria
uma comissão dos Altos Graus que permanecerá com uma atividade
bastante modesta até 1782, quando será criada a Câmara dos
Graus.
Em 1780, como reação à publicação do “Catechism de Franc
Maçons”, mais uma obra medíocre das tantas que abundavam (e
ainda abundam), que desagradou profundamente a um grande
estudioso maçonólogo da época, Louis Guillemain de Saint Victor,
este preparou um estudo contendo pesquisas relativas aos
mistérios da Antigüidade, e lançou dois anos depois a “Recueil
Precieux de La Maçonnerie Adonhiramite” (Compilação Preciosa da
Maçonaria Adonhiramita). A parte publicada em 1782 abrangia 4
graus, ou seja, Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Perfeito.
Em 1785 ele lança uma segunda parte onde outros graus eram
tratados. Eram eles:
- Primeiro Eleito ou Eleito dos Nove;
- Segundo Eleito ou Eleito de Perignam;
- Terceiro Eleito ou Eleito dos Quinze;
- Aprendiz Escocês ou Pequeno Arquiteto;
- Companheiro Escocês ou Grande Arquiteto;
- Mestre Escocês;
- Cavaleiro da Espada ou Cavaleiro do Oriente ou da Águia;
- Cavaleiro Rosa-Cruz.
Ao final dessa edição, constava também a tradução do alemão de
um grau denominado “Noaquita ou Cavaleiro Prussiano”, o qual era
atribuído a um autor maçônico denominado Bérage. Este “13º” foi
interpretado por alguns autores como o último grau da Maçonaria
Adonhiramita. No entanto, se bem analisado o contexto, fica
claro que não existe qualquer ligação entre os graus anteriores
e esse 13º grau. Além do mais o próprio autor, Louis Guillemain
de Saint Victor, afirmou que o grau de Cavaleiro Rosa-Cruz é o
ápice e o término de seu sistema.
O período em que Louis Guillemain de Saint Victor escreve é
extremamente significativo para a Maçonaria Francesa. Em 1° de
Fevereiro de 1782, mesmo ano em que foi lançada a primeira parte
da “Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita” ocorre a 121ª
assembléia do Grande Oriente da França, onde os irmãos
constituem a Câmara dos Graus que se reúne para debates em 19 de
fevereiro de 1782. Em 5 de março, o Irmão Orador Roëttier de
Montaleau, propõe o estudo de todos os graus existentes
praticados na França para que se faça uma síntese dos mais
importantes e se crie um sistema ordenado, que contemple toda a
filosofia maçônica.
Em 21 de fevereiro de 1783, a Câmara dos Graus apresentará o
resultado de uma pesquisa sobre 38 Altos Graus sem nenhum
resultado prático.
Em 2 de fevereiro de 1784 é publicada uma circular anunciando
que sete Lojas Capitulares Rosa-Cruz se associaram para formar o
Grande Capítulo Geral da França. Esse Capítulo Geral da França,
vai analisar nada menos de 81 Graus diferentes, onde se contavam
75 Altos Graus só entre os chamados “escoceses” e mais de 135
sistemas ou ritos. O Capítulo Geral tentará os resumir em 5
Ordens, que se tornarão, por assim dizer, o fundamento da
“ortodoxia maçônica” na França, que sintetizarão os elementos
fundamentais dos ensinamentos e a forma mais tradicional da
família de graus que ele representa.
Já na época de formação do Grande Capítulo Geral, depois de se
definir que todos os Graus estudados seriam resumidos em 4
Ordens, se estabeleceu uma 5ª Ordem, chamada de “Ilustre e
Perfeito Mestre” que seria o Grau Acadêmico e administrativo
destinado a conservar e estudar todos os graus e sistemas e que
também serviria para administrar o Grande Capítulo Geral.
Em 19 de março de 1784, é publicado o ritual da 1ª Ordem –
Eleito Secreto.
Em 18 de dezembro de 1784 é publicado o ritual da 2ª Ordem,
Escocês.
Em 19 de Maio de 1785 é publicado o ritual da 3ª Ordem,
Cavaleiro do Oriente.
No segundo semestre de 1785 se publica o ritual da 4ª Ordem,
Soberano Príncipe Rosa-Cruz.
O Grande Oriente da França e o Grande Capítulo Geral da França
entrariam em conflito diversas vezes, pelo fato de haver uma
certa confusão em relação à autoridade sobre os Graus e as
Lojas.A obra de Louis Guillemain de Saint Victor teve repercussão
extremamente positiva a ponto de em 1785 (ou seja, apenas 3 anos
após o lançamento da primeira parte e no mesmo ano do lançamento
da segunda), já estar sendo publicada, em francês mesmo na
Filadélfia, EUA. Esta obra se tornou uma referência canônica do
Rito Adonhiramita, e com ela o próprio rito alcançou ampla
divulgação e expansão na Europa, chegando a se tornar o
principal rito do Grande Oriente Lusitano e sendo exportado para
suas colônias na África, Ásia e Novo Mundo, inclusive o Brasil.
Na França, tornou-se, junto com a estrutura proposta pelo Grande
Capítulo Geral, o padrão de “Ortodoxia Maçônica”.
Aliás, é sob o titulo de “Ortodoxia Maçônica” (“Orthodoxie
Maçonnique suive de La Maçonnerie Oculte”, editada em 1837), que
Jean Baptiste Marie Ragon (1781-1862) irá cometer dois erros
grosseiros que se propagarão com grande sucesso.
O primeiro erro de Ragon é a atribuição da “Compilação Preciosa
da Maçonaria Adonhiramita” ao Barão de Tschoudy (Théodore Henry
de Tschoudy). Esse erro será repetido “ad nauseam” em Portugal e
no Brasil.
Tschoudy não teve absolutamente nada a ver com o Rito
Adonhiramita. Sua obra, “A Estrela Flamejante” lançava as bases
de uma Ordem denominada de ‘Ordem da Estrela Flamejante’, de
características alquímicas.
Em 1766, Tschoudy instituiu, mais no papel do que efetivamente,
sua Ordem, baseado na lenda de que tradições alquímicas teriam
sido passadas pelos ascetas da antiga Tebaída às Ordens de
Cavalaria cristã e dessas para a Franco- Maçonaria.
Tschoudy faleceu em 1769, ou seja, 13 anos antes do lançamento
da primeira parte da “Compilação Preciosa da Maçonaria
Adonhiramita”.
Ragon confundiu as coisas e atribuiu ao Barão a autoria da
“Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita”.
O segundo erro de Ragon foi a afirmação de que o Rito
Adonhiramita constava de 13 Graus, pois, para Ragon, o Grau de
Noaquita, seria o 13º Grau.
A obra fundacional do Rito Adonhiramita, ou seja, a “Compilação
Preciosa da Maçonaria Adonhiramita” veio para o Brasil através
de uma edição de 1810. Essa edição foi traduzida e publicada
pela “Typographia Austral”, no Rio de Janeiro, no ano de 1836
como “Coleção Preciosa da Maçonaria Adonhiramita” .
A primeira Loja REGISTRADA no Grande Oriente do Brasil como
praticante do Rito Adonhiramita foi a “Sabedoria e Beneficiência”,
um ano depois do lançamento da tradução à qual aludimos acima
(1837).
Há a hipótese de que a Loja “Reunião” (1801) e a Loja
“Distintiva” (1812), ambas localizadas na atual Niterói,
trabalhariam no Rito Adonhiramita, mas não é possível afirmar
isso com certeza.
O Grande Oriente do Brasil, à época, era uma Obediência Mista,
ou seja, trabalhava os Graus Simbólicos e os Graus Superiores,
sem divisão.
A Carta concedida para a fundação do Grande Oriente Brasílico
previa a autorização para se trabalhar em todos os Graus
utilizados na França e em Portugal, com a exceção dos
pertencentes ao Rito Escocês Antigo e Aceito que, desde 1801,
exigia a concessão de uma patente separada, patente essa que
deveria ser emitida pelo Supremo Conselho de Charleston ou por
Supremo Conselho por ele reconhecido. Justamente por isso,
posteriormente (1854), o Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil
se tornaria também o Soberano Comendador do REAA, pois este era
o único Rito trabalhado no Brasil (introduzido em 1829) que
exigia uma autorização separada. Já em 1832 foi fundado o
Supremo Conselho do REAA no Brasil que trabalharia como uma
Potência Maçônica Independente.Em 1839, o GOB criaria um “Grande Colégio dos Ritos”, que era um
tipo de departamento para o governo dos Ritos Adonhiramita,
Moderno e Escocês (de maneira irregular), já que o REAA deveria
funcionar, e de fato já funcionava, separado.
Em 1854, com a incorporação regular do Rito Escocês Antigo e
Aceito ao GOB, o “Grande Colégio dos Ritos” sofreu uma
transformação. Tendo em vista que, oficialmente, o REAA se
incorporaria ao GOB e exigia um governo separado, não poderia
ser simplesmente juntado ao “Grande Colégio de Ritos” ou fundido
como era antes. Sendo assim, em 1855 foi criado o “Sublime
Grande Capítulo dos Ritos Azuis” (i.e. Moderno e Adonhiramita),
que comporia colateralmente ao Supremo Conselho do REAA, as
Oficinas Chefes dos Ritos.
Para governar as Lojas e Câmaras do REAA, o Grão-Mestre teria
que se tornar, também, o Soberano Comendador do Supremo
Conselho.
O “Sublime Grande Capítulo dos Ritos Azuis” teve existência
curta. Em 1863, menos de dez anos após sua criação, ocorreu a
dissidência liderada por Joaquim Saldanha Marinho, onde foi
criado o “Grande Oriente do Vale dos Beneditinos.
No Grande Oriente “dos Beneditinos” o Rito Adonhiramita foi
muito bem sucedido. O número de Lojas trabalhando no rito
suplantou aquelas do GOB.
Foi o Grande Oriente “dos Beneditinos” que criaria o primeiro
corpo capitular do Rito Adonhiramita no Brasil, em 3 de Outubro
de 1872 seria criado o “Grande Capítulo dos Cavaleiros Noaquitas”.
No GOB foram fundadas as Lojas “Aliança” (1869) e a “Redenção”
(1872), que perfaziam 3 Lojas (com a “Firmeza e União”) do GOB
contra 5 em funcionamento no Grande Oriente dos Beneditinos.
Com essas 3 Lojas, o GOB criou pelo decreto nº 21 de 2 de abril
de 1873 o “Grande Capítulo dos Cavaleiros Noaquitas”, homônimo
ao seu concorrente no outro Grande Oriente. Cabe salientar que o
erro de Ragon, o de que o Rito Adonhiramita tinha 13 Graus,
sendo o último o de “Cavaleiro Noaquita”, vingou no Brasil.
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